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sexta-feira, maio 20, 2011

Preciso de Alguém

Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar,
mas nunca encontrei você na escada.

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia – eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como – eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto – preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio – tão cansado, tão causado – qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios – que importa? (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio – viria? virá? – e minto não, já não preciso.) Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

Caio Fernando de Abreu

sábado, maio 14, 2011

Nunca vou entender

[...] Todas as vezes que te vi, nesses últimos quatro ou cinco anos, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronta pra começar algo, pra tomar um café de verdade, pra passear de mãos dadas no claro, pra poder te apresentar ao sol sem receber mensagens de gente louca ou olhares curiosos, pra escutar uma piada nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu caminho que sempre é interrompido pelo vazio da sua camiseta fedendo a churrasco. Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber porque a vida é assim. Eu nunca vou entender porque a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender porque você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que você quer, mas as nossas exatidões não funcionam numa conta de mais. [...]
Tati Bernardi

segunda-feira, março 07, 2011

Primeiro Amor

  É engraçado a forma de que muitas criancinhas fazem caretas quando vistos um beijo. E a ironia da vida nos leva ao primeiro beijo sem nem perceber as transformações em nossos pensamentos. Na verdade, eu não passei por essa fase de acreditar que beijos era coisa nojenta ou coisa parecida; influência da TV, talvez. Mas também não sei como cheguei ao estágio do primeiro amor. Meu caso não foi tão particular, eu o amava, minha melhor amiga o amava. Ridículo não? Pois a verdade que isso acontece mais do que se imagina. Passar o dia pensando nele, escrever cartas para ele, e ter muitas brigas - que eram perdoadas em cinco minutos - por causa de um garotinho que apesar de mais velho quase tão infantil quanto nós éramos. O que só mostra que o primeiro amor não causa conseqüências tão diferente aos segundo, terceiro, e quarto amores que possa se ter. Talvez as borboletas, cresçam junto com agente e se tornem mariposas causadoras do caos; talvez pelo fato de você ter amadurecido as aquelas pequenas coisas que incomodavam se tornem pequenas demais para se importar, mas mesmo assim sempre há brigas, ciúmes, e muito amor para dar. Quando lembro dessa fase da minha vida, acho graça; e creio que por isso que não me arrependo muito. Pelo menos depois disso só vi que minha amizade é verdadeira, só ela prevaleceu.

sexta-feira, março 04, 2011

Eu amo

“Eu sei que amo porque eu me importo. Eu sei que eu amo porque eu tenho vontade de brigar quando ele faz alguma coisa absurda que coloca em risco a própria segurança. Eu sei que amo porque de manhã, quando eu acordo, eu tenho vontade de ligar só pra desejar bom dia; e a noite, quando eu volto da faculdade, eu ligo pra saber se o dia foi bom e me interesso por cada suspiro que ele deu. Confesso que às vezes ligo só pra saber se ele sentiu saudade de mim, e às vezes deixo de ligar só pra ter certeza que a saudade dele é verdadeira, e espero ansiosamente o telefone tocar. Eu sei que amo porque quando eu vou ao shopping, comprar roupas pra mim, passo muito mais tempo na sessão de roupas masculinas, imaginando como ele ficaria lindo com aquela camisa ou aquele boné. Eu sei que amo porque quando converso com minhas amigas é só dele que eu quero falar. E sempre que a gente fica em silêncio eu tenho vontade de falar freneticamente sobre como eu adoro o som intercalado das nossas respirações – mas isso faria com que eu parasse de ouvi-las. Eu sei que amo porque quando ele me diz coisas duras, ou fala comigo de forma grosseira, meus olhos se encham de lágrimas imediatamente, mas eu tento disfarçar pra que ele não se sinta culpado, afinal, eu que sou sensível demais. E quando ele precisa de mim pra alguma coisa eu ganho meu dia apenas por pensar que – por um momento que seja – eu sou indispensável em sua vida.”

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